Às vezes eu olho para o espelho e vejo todas as camadas de quem eu fui, como se fossem adesivos colados na porta de um guarda-roupa antigo. Tem o glitter do Glam Metal, o corset apertado do Metal Sinfônico e a flanela surrada do Grunge. Tudo isso emoldurado por uma pele preta que carrega 38 anos de histórias e algumas tatuagens que chegaram "tarde", mas no tempo exato em que recuperei meu corpo para mim mesma.
Se você me visse nos anos 2000, encontraria uma garota de manequim 34 no interior de São Paulo, tentando se encaixar em cenas que nem sempre queriam me abraçar. O meio alternativo gosta de vender a ideia de "liberdade", mas a gente sabe que, para uma mulher negra, o tribunal é mais rigoroso. Hoje, visto 52 e se o preconceito já existia quando eu era padrão, imagine agora, tentando encontrar o equilíbrio entre o cute e o dark em lojas nacionais que parecem acreditar que corpos gordos não têm estilo, apenas "necessidade de se cobrir".
O Retiro do Barulho Virtual
Houve um tempo em que minha vida era um feed aberto, uma busca constante por validação em fóruns e redes sociais. Hoje? Meu cantinho é discreto, prefiro a profundidade de poucos olhos que realmente enxergam do que o brilho raso de mil curtidas. Troquei a performance digital pela vida real, pelo toque, pelo silêncio.
Minha estética reflete esse caos calmo:
O Lado Cute: A nostalgia de Sailor Moon e Guerreiras Mágicas de Rayearth. Tem algo de revolucionário em manter a doçura de uma Magical Girl quando o mundo espera que você seja apenas "forte".
O Lado Dark: O peso de Devil May Cry e a melancolia estética que nunca saiu de mim.
O Lado Real: A leveza de Minha Adorável Cosplay e o humor ácido de Nagatoro.
O Desafio do Espelho e da Arara
Comprar roupa virou um exercício de paciência (ou de revolta), é bizarro como as marcas brasileiras ignoram que uma mulher 52 também quer usar rendas, correntes e elementos que fujam do básico sem graça. Mas, honestamente? Depois de sobreviver aos olhares tortos de quem achava que tatuagem aos 28 era "crise de identidade", não é um manequim que vai me impedir de ser a mistura de aura mística e alternativa do interior que eu sempre fui.
Sou caseira sim, prefiro meu setup de luta, meus animes e meu café! A vida ficou mais lenta, mais seleta e pela primeira vez, parece que sou eu quem está no controle do controle (mesmo que eu ainda perca alguns combos no videogame).Sabe, assistir a Sailor Moon aos 38 anos, vestindo meu manequim 52 e com as costas reclamando, é uma experiência quase espiritual. Quando eu era aquela garota preta no interior, magrela e de manequim 34, a Serena era meu ideal de "fuga". Eu queria ser loira? Não. Eu queria ter o poder de me transformar, a transformação era o ápice: a roupa perfeita aparecendo do nada.
Hoje a "transformação" é diferente, minha primeira tatuagem aos 28, foi minha verdadeira sequência de transformação mágica, foi o momento em que parei de pedir licença para o meio alternativo que sempre foi bem racista e gordofóbico, vamos falar a real.Sailor Moon me ensinou que você pode ser ultra feminina e ainda assim, carregar o peso do destino do mundo nas costas!É exatamente como eu me sinto misturando minhas referências de Heavy Metal com estética kawaii, é o laço rosa em cima da camisa de banda.
No fundo, acho que sou um pouco como a Sailor Pluto: a guardiã do tempo, parada entre o que já fui (o grunge, o glam, o interior) e o que sou agora (o digital contido, a maturidade, a vida real).- A diferença é que meu báculo agora é um controle de videogame e minha maior luta é encontrar um corset que feche sem me tirar o fôlego, mas que mantenha minha alma alternativa viva.
Se existe um culpado pela minha estética "vampira do interior com um toque de caos", o nome dele é Dante. Engraçado como a gente projeta nossos desejos de liberdade em personagens de ação, né? Quando eu era aquela menina de 15, 16 anos, no auge do Glam Metal e descobrindo o Metal Sinfônico, o Dante era a personificação de tudo o que eu queria ser: estiloso e com um deboche que cortava mais que a a sua espada.
Hoje sentar no sofá para jogar Devil May Cry, tem um sabor de "revisitando um ex que envelheceu bem", mas com umas dores nas costas que o Dante (milagrosamente) parece não ter.Na época do PS2, meu sonho de consumo era aquele sobretudo vermelho,eu me imaginava nele, magrela, atravessando a praça da matriz na minha cidade no interior como se estivesse caçando demônios (que, na verdade, eram só os olhares tortos dos conservadores).
O Dante tem aquela vibe dark, mas ele é um fanfarrão,é o que eu tento trazer para o meu dia a dia: a seriedade do preto e do couro misturada com um chaveiro da Sailor Moon na bolsa! É o equilíbrio entre o "vou te derrotar" e o "vamos comer uma pizza", o que eu mais amo no jogo hoje não é nem a velocidade dos combos, mas a sensação de poder. No mundo real como mulher negra e gorda, a gente gasta muita energia sendo "discreta" para não incomodar, ou "profunda" para não ser lida como superficial, no jogo, eu sou o caos!
Dante envelheceu, ficou mais barbudo, mais cansado em DMC 5, eu também, minhas tatuagens aquelas que o pessoal do "meio alternativo raiz" dizia que eu demorei demais para fazer, agora brilham enquanto seguro o controle da minha vida,elas são meu arsenal.O Dante nunca pediu desculpas por ser exagerado, eu finalmente parei de pedir desculpas por ocupar espaço! Seja com meu corpo, com meu estilo dark-fofo ou com minha vontade de ficar em casa jogando em vez de estar em algum "rolê" ruim.


Que texto lindo Mah! Muito bom ver como você amadureceu sem deixar pra trás a essência de quem você era na adolescência. O meio "alternativo" ás vezes pode ser impressionantemente conservador né? Espero que você continue ocupando seu espaço na cena do seu jeitinho, pois isso que é realmente ser alternativo.
ResponderExcluirAbraços!
Acho que crescer sem perder nossa essência é sempre um desafio, né? E sim, às vezes o meio alternativo pode ser bem mais conservador do que a gente imagina… mas sigo tentando fazer tudo do meu jeitinho, com verdade!Obrigada pelo apoio, significa muito pra mim!
ExcluirAbraços!